Desde 2020 a preocupação com o tema ESG (Environmental, social and corporate governance – Governança Ambiental, Social e Corporativa) virou moda e mostrou que veio para ficar, para tristeza de quem acredita que a mudança climática não existe (e que geralmente também acham que a terra é plana). 

Em 2021 não só estamos falando sobre ESG, como estamos vendo a aplicação dele na prática e a consequência no mercado financeiro. Para embasar ainda mais esses argumentos, Larry Fink, o CEO da BlackRock (maior gestora de investimentos do mundo), publicou a sua tradicional carta anual. 

Nesse artigo, vou resumir os 4 principais pontos tratados na carta sob a perspectiva climática no meu ponto de vista.

  • Primeiro, mudança estrutural nas finanças: o meio ambiente e as questões sociais tem impacto direto na economia, se não tratarmos esses temas com a relação de simbiose necessária, os dias da economia também estarão contados. Por isso, o capitalismo tradicional como conhecemos já está deixando de existir, e os investidores estão considerando cada vez mais a perspectiva ambiental e social para tomada de decisão dos seus investimentos.

“Por exemplo, nos Estados Unidos, será que as cidades serão capazes de suprir as necessidades de infra-estrutura à medida que o risco climático muda o mercado de títulos municipais? O que acontecerá com as hipotecas de 30 anos – um pilar fundamental das finanças – se os credores não puderem estimar o impacto do risco climático para um horizonte tão longo, e o que acontecerá com as áreas afetadas por enchentes ou incêndios se não houver um mercado de seguros viável para esses eventos? O que acontece com a inflação, e por sua vez às taxas de juros, se o valor dos alimentos aumenta devido à seca ou às inundações? Como podemos modelar o crescimento econômico se os mercados emergentes vêem sua produtividade cair como resultado das temperaturas extremamente altas e outros impactos climáticos?”

  • Segundo, risco climático é risco de investimento: a BlackRock, e seu grande poder de influência no mercado, posiciona-se como uma gestora que já deixa de investir em empresas que prejudicam o meio ambiente e a sociedade, e apostam em ativos sustentáveis alinhados com o ESG. Essa jornada precisa ser democrática e justa, ou seja, a responsabilidade é de todos, desde governos, organizações e sociedade, para todos os níveis. 

“Em carta enviada hoje aos nossos clientes, a BlackRock anunciou uma série de iniciativas para posicionar a sustentabilidade no coração da nossa estratégia de investimento. Estas incluem: fazer da sustentabilidade uma parte integrante da construção do portfólio e da gestão de risco; desinvestir daqueles com alto risco de sustentabilidade, como os produtores de carvão para termoelétricas; lançar novos produtos de investimento que filtrem os combustíveis fósseis; e fortalecer nosso compromisso com a sustentabilidade e a transparência em nossas atividades de gestão de investimentos.”

“Os governos e o setor privado devem trabalhar juntos para fazer uma transição justa e equitativa – não podemos deixar partes da sociedade, ou países inteiros em mercados em desenvolvimento, para trás enquanto caminhamos em direção a um mundo de baixa emissão de carbono.”

  • Terceiro, maior transparência para os acionistas: O ecossistema do investimento precisam de uma imagem mais aberta e expositiva das empresas, de forma em que todos possam avaliar o comprometimento delas para a ação do clima. Ao passo que as empresas são transparentes com seu posicionamento aos princípios ESG, naturalmente o mercado dará a resposta do valuation e o futuro da empresa, comparando até com concorrentes diretos. Quem tiver maior afinidade aos princípios ESG obviamente levará a melhor, e os que não tiverem vão perder aos poucos seu espaço no mercado.

“A importância de servir as partes interessadas e integrar o propósito está se tornando cada vez mais fundamental para que as empresas entendam o seu papel na sociedade. Tal como escrevi em cartas anteriores, uma empresa não pode alcançar lucros a longo prazo sem ter um objetivo e sem considerar as necessidades de uma ampla gama de partes interessadas. Uma empresa farmacêutica que aumenta impiedosamente os preços, uma empresa de mineração que reduz a segurança, um banco que não respeita seus clientes – essas empresas podem maximizar os retornos a curto prazo. Mas, como temos visto repetidas vezes, essas ações que prejudicam a sociedade irão prejudicar a empresa e destruir o valor para os acionistas. Em contraste, um forte senso de propósito e um compromisso com as partes interessadas ajuda uma empresa a se conectar mais profundamente com seus clientes e a se ajustar às mudanças nas demandas da sociedade. Em última análise, o propósito é o motor da rentabilidade a longo prazo.”

“Dado o trabalho de base que já lançamos sobre a divulgação, e os crescentes riscos de investimento em torno da sustentabilidade, estaremos cada vez mais dispostos a votar contra a administração e os diretores quando as empresas não estiverem progredindo o suficiente nas divulgações relacionadas à sustentabilidade e nas práticas e planos de negócios subjacentes a elas.”

  • Quarto, capitalismo responsável e transparente: uma grande esperança de mudança ainda maior também está na força da nova geração, que aos poucos vão ocupando os cargos de liderança nas empresas, poder público, e demonstram a sua vontade de mudança em prol do meio ambiente. Com essa cascada que converge para um mundo sustentável, nossa esperança de um mundo real parece cada vez mais paupável.

“A medida que nos aproximamos de um período de realocação de capital significativo, as empresas têm a responsabilidade – e um imperativo econômico – de dar aos acionistas uma imagem clara do seu grau de preparação. E no futuro, uma maior transparência nas questões de sustentabilidade será um componente persistentemente importante da capacidade de cada empresa para atrair capital. Ela ajudará os investidores a avaliarem quais empresas estão servindo seus acionistas de forma eficaz, remodelando o fluxo de capital de acordo com isso. Mas o objetivo não pode ser a transparência em nome da transparência. Deve ser um meio para alcançar um capitalismo mais sustentável e inclusivo. As empresas devem ser deliberadas e empenhadas em abraçar o propósito e servir todas as partes interessadas – seus acionistas, clientes, funcionários e as comunidades onde operam. Ao fazer isso, sua empresa desfrutará de maior prosperidade a longo prazo, assim como os investidores, trabalhadores e a sociedade como um todo.”

Em conclusão, o posicionamento da BlackRock, como grande player do mercado, nos dar uma luz de como o ecossistema passará a se comportar nos próximos anos. É através do ESG, que podemos ter o bem estar econômico em sincronia com o da sociedade. A mudança deve ocorrer o mais rápido possível, pois não temos tempo a perder.

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