Hoje, dia 19 de setembro, é comemorado o dia nacional de limpeza de praias e rios. Essa data visa conscientizar as pessoas em relação ao descarte inadequado do lixo e à poluição gerada nos recursos hídricos. Somente no Brasil, o volume de resíduos sólidos encontrados nos rios e mares é equivalente ao mesmo que encher 30 estádios do Maracanã, da base até o topo, segundo pesquisa feita pela Agência Brasil.

Em função disso, iniciativas que trabalhem focadas em mudar essa realidade, são mais que necessárias. Uma dessas iniciativas que vêm fazendo um trabalho incrível em limpeza de mares é a Marulho Eco, uma empresa de impacto socioambiental que atua na coleta de redes de pescas antes descartadas, transformando-as em novos produtos. 

Na entrevista concedida a SDW por e-mail, Bia Mattiuzzo, oceanógrafa e fundadora da Marulho Eco, explica um pouco sobre a história da Marulho, o envolvimento desse negócio de impacto socioambiental com a comunidade que atua, além da sua contribuição para o alcance das ODS.

Confira a entrevista

SDW – O que motivou os fundadores a promover um negócio de impacto social?

Bia Mattiuzzo – A Marulho na verdade só existe por conta da nossa convivência com uma comunidade caiçara na Ilha Grande, em Angra dos Reis – RJ. Eu e o Lucas somos oceanógrafos e viemos para a Ilha no começo de 2019 para um trabalho temporário de verão, com mergulho e maricultura. Mas acabamos nos envolvendo muito com a comunidade e sentindo que nosso conhecimento poderia de fato fazer a diferença nesse território.

SDW – Como é a convivência e qual a relevância da comunidade no trabalho da Marulho?

Bia Mattiuzzo –  Angra dos Reis é um lugar que evidencia as desigualdades do nosso país. De um lado, víamos as redes de pesca descartadas no cais dos pescadores, sabendo do impacto que esse material causa no oceano – a chamada pesca fantasma. E do outro lado, experienciamos uma ilha paradisíaca e atendemos iates de luxo, enquanto a comunidade local não tinha o papel de protagonista nesses processos como deveria.

Pesca Fantasma: pesca causada por petrechos de pesca perdidos, descartados e abandonados no mar, que continuam a capturar animais marinhos. São até 25 milhões de animais mortos por ano, só no Brasil. Dados do Relatório Maré Fantasma

Foi por entender essa realidade que surgiu a vontade de criar uma solução para evitar que as redes de pesca fossem jogadas no mar ao mesmo tempo que valorizamos o conhecimento tradicional das comunidades caiçaras. Então, tivemos a ideia de criar os saquinhos de hortifruti feitos de rede e costurados pelos pescadores locais. Com a pandemia, em julho de 2020, passamos a nos dedicar integralmente a essa ideia.

Hoje, após 2 anos, sabemos o básico sobre a costura das redes, mas a essência do nosso negócio é que seja feito a mão, saber que só os pescadores possuem, e por isso a comunidade é e continua sendo parte fundamental da Marulho.

Bia Mattiuzzo
https://fazermarulho.com.br/shop/

SDW – Quais os principais ODS atingidos pelo impacto da Marulho?

Bia Mattiuzzo – Nosso ODS queridinho é o 14, Vida na Água. Aqui, por ser uma ilha, tudo depende do mar – e as pessoas que vivem também nos lembram disso o tempo todo. É importante lembrar que a vida na água não se refere só aos animais marinhos, mesmo que esses tenham tudo a ver com nosso trabalho de evitar a pesca fantasma, mas também de todas as comunidades costeiras que vivem nesta região. Além do ODS 14, trabalhamos bastante a questão de gênero (ODS 5) ligada à pesca; condições justas de trabalho (ODS 8) e consumo e produção sustentáveis (ODS 12).

SDW – Qual o impacto já alcançado?

Bia Mattiuzzo – Desde o começo de 2021 até o momento, já conseguimos interceptar mais de uma tonelada de redes de pesca, gerar mais de 100 mil reais diretamente para a comunidade local, além de produzir e comercializar mais de 15 mil produtos

Além disso, há muito impacto difícil de ser mensurado. Temos relatos dos colaboradores locais dizendo ter mudado sua perspectiva sobre o descarte das redes, que hoje isso não é mais jogado no mar.

O próprio fato das redes serem todas doadas para nós, por pescadores, é uma prova viva de que há um entendimento que o impacto voltará para a comunidade. Pois os pescadores sabem que ao doar aquele material estão contribuindo para gerar renda para amigos e parentes.

Bia Mattiuzzo

SDW – Como a comunidade sente esse impacto?

Bia Mattiuzzo – Nosso objetivo com a comunidade nunca foi termos um papel de liderança, até porque sabemos que como gestores, eu e o Lucas somos pessoas de fora e entendemos que o protagonismo deve ser caiçara. Por isso, nosso desejo sempre foi de ter um papel de facilitadores, para apoiar e permitir que outras iniciativas locais pudessem surgir e prosperar. 

Nesse período de atuação por aqui, conseguimos instalar internet na escola local e reformar um pequeno espaço comunitário onde damos oficinas para ensinar as técnicas de costura de rede aos mais jovens, e onde também ocorrem aulas de muay thai e yoga. Acho que é isso, ser sementinha, sabe?

SDW – Quais as metas para os próximos anos? 

Bia Mattiuzzo – Entendemos que a iniciativa da Marulho é replicável, pois tanto o problema da pesca fantasma quanto as dificuldades encaradas pela comunidade que vivemos são comuns a muitos outros territórios costeiros. Nosso sonho ainda é expandir e começar a capacitar outros locais, mas falta um tempo para chegarmos lá…

Nesse meio tempo, desenvolvemos o Guia da Marulho sobre como transformar redes de pesca em outros produtos, para que outros líderes comunitários e gestores possam começar a encarar essa por conta própria se quiserem – o guia está disponível gratuitamente no site!  

SDW – Você acredita que o trabalho realizado pela Marulho conversa de alguma forma com o trabalho realizado pela SDW?

Bia Mattiuzzo – É engraçado pensar em semelhanças entre negócios sociais sendo um em áreas áridas e outro em uma abundância de água, né? Mas existem muitas. Seja pelas dificuldades de se empreender com impacto socioambiental no Brasil (a gente sabe que é sempre uma luta!) ou mesmo a questão do saneamento, que aqui é bem complicado.

No fim, acho que ambos os casos mostram como precisamos valorizar a água, essencial à vida, e as pessoas que cuidam dela. 

Bia Mattiuzzo
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