Confira nesta entrevista uma análise da pesquisa sobre o acesso ao saneamento, seu fator de transformação na sociedade e o papel da SDW como negócio de impacto social diante deste cenário. 

O Novo Marco Legal do Saneamento básico, aprovado durante a sanção da Lei n° 14.026 em julho de 2020, estabelece como meta a universalização do saneamento até 2023. Através dessa meta, é possível promover mais qualidade de vida a populações que ainda têm acesso a este recurso.

Inúmeros são os fatores de transformação que o acesso ao saneamento básico promove, desde o combate às desigualdades e a promoção da dignidade, redução dos riscos de desenvolvimento das doenças de veiculação hídrica, além do desenvolvimento educacional e na renda da população.

Na entrevista concedida à SDW por e-mail, Douglas Leite, mestre e doutorando em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP, discorre sobre o saneamento básico como fator de  transformações. 

Confira a entrevista

SDW – A nível de pesquisa, como o cenário atual do saneamento no país é compreendido?

Douglas Leite – Tem um filósofo brasileiro, que também foi médico e matemático, que gosto muito, o Álvaro Vieira Pinto. Ele costumava dizer que, em um país como o Brasil, subdesenvolvido e em grande parte analfabeto, o filósofo, para pensar autenticamente a realidade, precisa ser analfabeto. Não à toa, o notório educador Paulo Freire chamava o Álvaro de “meu mestre”.

Eu coloco a SDW nesse conjunto de atores que pensam a realidade brasileira a partir de sua base material, e não apenas através de números estatísticos. 

Douglas Leite

Eu digo isso porque os índices de saneamento básico que vemos hoje, divulgados amplamente, deixam de lado algumas considerações importantes.

A principal delas é a seguinte: não adianta acharmos que teremos a mesma infraestrutura de saneamento da Avenida Paulista, símbolo financeiro do Brasil, nos pequenos municípios espalhados pelo interior do país. Hoje, os dados que dizem onde há e onde não há saneamento tomam por base esses nossos símbolos, que remetem a países europeus e cidades estadunidenses, e a realidade não é bem assim.

Naturalmente, os índices de atendimento são muito pautados pelos grandes operadores do saneamento, que são empresas, públicas ou privadas, que olham essencialmente para a maioria da população.

O atendimento a densos aglomerados urbanos, no Brasil, é feito por blocos de infraestruturas, que demandam represamentos enormes, quilômetros de tubulações de porte, grandes estações de tratamento e toneladas de materiais químicos para potabilizar a água e despoluir o esgoto.

Essas estruturas requerem um cálculo de retorno sobre o investimento que não deixa margem para muitas alternativas: a tarifa aplicada aos consumidores é tida como base de rendimento.

Essa lógica, que é copiada de países onde ela tem sentido, deixa de lado muitas realidades importantes em um país como o Brasil. Na minha opinião, as pesquisas que tratam sobre o saneamento nacional não abordam essa questão como deveriam. Tomam esse cenário como dado, sem questioná-lo de maneira dialética.

SDW – Quais os incentivos acadêmicos para melhorar essa situação? 

Douglas Leite – No Brasil de hoje não há uma política pública que incentive uma mudança inovadora no saneamento, principalmente em termos de estruturação de uma teoria específica para a nossa realidade. Encontra-se ações isoladas, como concursos de inovação, feiras, fomento para apresentação de ideias etc, preconizadas por organizações públicas e privadas.

Entretanto, como eu disse, não há a busca por criarmos a teoria do nosso próprio saneamento, baseado na nossa realidade e nosso povo, nosso clima e seu regime de chuvas, nossos rios, fauna, flora, cultura, enfim, o saneamento brasileiro é, em essência, uma reprodução do que é feito em países ricos, com poucas exceções introduzidas por Saturnino de Brito e os irmãos Rebouças no início do século XX.

SDW – Qual sua leitura do saneamento urbano e rural? Poderia falar sobre os principais desafios em ambos os casos?

Douglas Leite – Vou voltar a lembrar do Álvaro Vieira Pinto, que publicou uma obra de mais de mil páginas para desenvolver seu conceito de tecnologia. É uma obra seminal, que infelizmente é ignorada pelo nosso currículo, tanto do ensino médio como das universidades.

Ele nos diz que a dicotomia urbano/rural está na raiz de muitas questões. Biologicamente, o ser humano ganhou um sistema nervoso que lhe deu a capacidade de olhar para a natureza de forma utilitária, buscando controlar as leis naturais a seu favor. Isso nos levou a desenvolver a agricultura e os sistemas de irrigação, por exemplo.

Esse percurso nos traz, hoje, à vida urbana. As melhorias trazidas pelo avanço técnico para o ser humano são inquestionáveis, vivemos mais e melhor do que nossos antepassados. Contudo, o conceito de consumo que se desenvolveu junto com esse avanço é preocupante.

Segundo a ONU, mais de 60% da população mundial vive em ambiente urbano, hoje.

E a população rural tende a diminuir, pois a indústria do consumo tem o urbano como foco, e isso leva a sociedade a encarar o urbano como melhor (e única) alternativa.

As implicações dessa questão são preocupantes em todos os campos, mas falando especificamente sobre o saneamento, eu vou trazer os resultados que minha pesquisa sobre o Aqualuz mostrou até agora.

A população rural do semiárido baiano, e eu penso que a amostra pesquisada é significativa para ampliarmos esse comportamento para outras áreas, não quer a estrutura de saneamento da avenida Paulista na porta da casa dela.

Isso porque essas pessoas sabem que, ao chegar o cano de água e de esgotamento, depois virá o asfalto, e seu estilo de vida não mais será o mesmo. 

Por isso, entre outros aspectos, as iniciativas de saneamento individual, como o Aqualuz são tão bem vindas.

Douglas Leite

Agora, quando levamos o Aqualuz para os centros urbanos, em São Paulo, no Paraná e no sul de Minas, foi interessante ver que muitos cidadãos urbanos se sentem neutralizados em suas personalidades por estarem ligados à infraestrutura de saneamento.

Sim, porque quando somos incluídos em um sistema de abastecimento, nos tornamos um número de cliente, e nosso perfil é visto por comportamento de consumo. Nada é personalizado em um sistema que atende milhões de pessoas, e ficou claro que aqueles “urbanos” que buscavam o Aqualuz almejavam a liberdade de serem diversos, e não aquilo que o sistema impõe.

Com as mudanças climáticas, as crises de abastecimento que temos visto nos centros urbanos, que têm se intensificado desde os anos 1990, colocam em xeque os moldes do saneamento urbano que o Brasil aplica hoje.

Se um sistema todo entra em colapso por diferenças drásticas no regime de chuvas, são milhões de pessoas em situação crítica, o que significa um colapso. Curiosamente, como minha pesquisa está mostrando, o estilo rural, com soluções mais regionalizadas e até individuais, poderá ser uma alternativa adequada.

SDW – Como você compreende a inserção da SDW nestes ambientes?

Douglas Leite

Novamente, como mostra minha pesquisa de doutoramento, a SDW está à frente do seu tempo. A SDW já tem campo de atuação tanto no ambiente rupestre, sua área principal, como também no urbano. Isso se dá não apenas pelas características dos seus produtos, acessíveis para populações carentes e de fabricação prática, com muita personalidade. Mas, também por sua postura inovadora na abordagem dos indicadores, no modelo de negócio e na visão de futuro.

SDW – Você acredita na universalização do acesso ao saneamento básico? O que você compreende como essencial para esse alcance?

A cada página que minha tese caminha tenho mais claro que a universalização do saneamento está mais perto do que nos faz pensar os indicadores que se baseiam em um cenário suíço para medir uma cidade como Caetité, no semiárido baiano. 

Douglas Leite
Douglas Leite – Considerações finais

Precisamos agora trabalhar em teorizar um saneamento brasileiro, com indicadores próprios, que refletem como pensa e como se sente nosso povo. A partir daí poderemos relativizar os indicadores que nos comparam com o hemisfério norte.

A SDW, nesse aspecto, se mostra pronta para atuar no campo e na teoria, com suas propostas de interpretação da realidade a partir de dados obtidos qualitativamente, visitando as pessoas e entendendo suas realidades.

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